domingo, 3 de abril de 2011

O Menino que não piscava

Estranho. Foi isso que o médico disse quando eu nasci. Claro que ele também fez uma expressão bastante intrigada, mas isso deixou de ser importante depois que fizeram todos os testes e concluíram que não havia nada de errado comigo.

O que não é verdade.

Cheguei a esse mundo impressionado. O que é anormal já que tecnicamente bebês nascem assustados e confusos. Através dos meus olhos, tudo parecia ser tão novo e empolgante! Milhões de coisas para se ver, descobrir, aprender. Oh, eu mal podia esperar!

Mas algumas pessoas nascem com azar. Certo. Mesmo que você não acredite em destino nem nada disso, é um fato: algumas pessoas tendem a se dar melhor na vida do que outras.

Esse definitivamente não é o meu caso.

Eu tive o azar de nascer em uma pequena cidade chamada Lyon. Uma dessas cidades onde as mesmas famílias preconceituosas e de mente fechada se conhecem a várias gerações. Onde todos sabem tudo sobre a sua vida e comentam sobre ela na hora do jantar. Ou seja, algumas horas após o meu nascimento todos sabiam que havia algo errado comigo. Seja lá o que fosse.

Ser filho de uma jovem mãe solteira também não contribuiu muito para a minha reputação.

Minha mãe conheceu meu pai na escola. Ele não era da cidade, o que já foi suficiente para ser visto com maus olhos, e como eu aparentava ter alguma coisa errada. Eles namoraram, minha mãe engravidou e logo em seguida meu pai a abandonou. Simples assim. Minha mãe diz que não o odeia, diz que ele simplesmente não agüentou ficar preso naquela cidade minúscula. Ele queria mesmo era ver o mundo. E então acabei recebendo o mesmo nome dele: Ferdinand, que significa aventureiro. Talvez minha mãe achasse que eu seria como o meu pai.

E, como na maioria das vezes, ela estava certa.

Quando era criança eu estava sempre muito só. Minha mãe estava muito ocupada envolvida em uma constante batalha. Algo como “trabalho demais e dinheiro de menos.” Não tinha irmãos e todos os adultos da cidade não permitiam que seus filhos se aproximassem de mim. Nas palavras deles eu era “um garoto com um olhar esquisito que com certeza era uma má influência e logo seria jogado em um reformatório, já que eu não tinha uma estrutura familiar sólida.”

Quer saber? Eles que se ferrem. Eu não precisava deles.

O que eu precisava mesmo era de conhecimento. Puro, simples e belo conhecimento. Aquilo iria me satisfazer. Assim, comecei a fugir de casa para explorar a cidade e ver o que eu podia aprender. Minha mãe ficava possessa. Dava-me palmadas e me colocava de castigo. Mas, no dia seguinte, eu fazia a mesma coisa. Tornou-se algo rotineiro até que ela definitivamente perdeu a paciência e decidiu me ensinar a ler. Eu fiquei viciado. Em poucas semanas li todos os livros que havia na minha casa. Enquanto lia Moby Dick pela segunda vez e me imaginava no lugar do capitão Ahab, ouvi a voz meio distante de minha mãe dizer que eu estava com o olhar vidrado como se não conseguisse piscar a muito tempo.

Não é que eu não conseguisse piscar. Eu conseguia. A verdade era que eu não queria piscar de maneira alguma. Tinha um medo mortal de piscar e perder algo de interessante que estava acontecendo, tanto dentro dos livros como no mundo lá fora. Tinha medo que as coisas desaparecessem se eu piscasse.

É. Eu sei que é um pensamento idiota. Mas eu era uma criança e estava fascinado. O que mais eu poderia pensar?

Assim, quando finalmente atingi a idade para ir para a escola, eu já tinha lido mais livros do que muito adultos haviam lido durante a vida toda. E eu queria mais. O grande problema da escola foi que ela não era nada como eu esperava. Estava certo aquele que disse que as crianças são cruéis, principalmente se elas foram criadas ouvindo que você é um degenerado. As mais novas zombavam de mim. As mais velhas me batiam.

E tudo isso porque eu era um filho esquisito de uma garçonete sem marido.
 
Mas eu preferia pensar que isso ocorria apenas porque eu não era como eles. Porque eu não aceitava ser como eles. Quando os insultos e as surras finalmente me atingiam eu me esforçava o máximo possível para achar que o motivo para eu ser desprezado era simplesmente porque, mesmo eu estar sempre com a cara enterrada em livros, eu enxergava mais do que todos eles. Eu via além das aparências, além do status e além de todas as bobagens que eles consideravam importantes.

E assim eu fui crescendo, com o sonho continuo de abandonar aquela cidade. Mas não foi fácil, eu sempre era desencorajado.

Grande parte dos professores me detestava, já que eu deixava minha imaginação fluir constantemente ou sempre lia durante suas aulas. Na maior parte do tempo eu estava na classe com um olhar vazio. Eles diziam que eu nunca seria ninguém na vida, que para dirigir uma empresa ou para ser advogado ou teria que me esforçar.

Tudo bem. Eles têm razão. Mas aquilo não era o que eu queria.

Eu quero ver o mundo. Conhecer tudo que há para se conhecer. E além de tudo me conhecer. Sempre acreditei que quem eu sou define o que eu quero fazer da minha vida e não o inverso.

Mas há uma hora em que você quer desistir. Há àquela hora em que você começa acreditar que todas aquelas coisas que as pessoas falam apenas para te derrubar são verdades absolutas. E você passa a ter medo. Medo de estar fazendo a coisa errada e eles estarem certos, e assim tudo pelo que você lutou até hoje ser algo perdido. Eram nessas horas em que eu queria mudar quem eu era apenas para ser aceito naquele lugar. Desistir de tudo que eu queria apenas por covardia.

E esses eram um dos momentos que eu não piscava. Isso impedia que as lágrimas caíssem.

Mas eu lembrava dos meus livros tão queridos e dos seus tão corajosos personagens e isso me dava forças.Se eles ,que passaram por provações maiores ,não desistiram porque eu iria ser diferente? Eu iria lutar. Se eu queria minha própria odisséia eu iria fazer com que ela acontecesse.

O tempo ia passando e eu ia crescendo. Continuava usando a leitura como uma espécie de “terapia” quando os maus pensamentos se abatiam sobre mim. Mas havia outra coisa que eu precisava conhecer: as pessoas. Precisava conhecê-las melhor. Precisava me relacionar com elas e me tornar um ser social. O grande problema é que elas não pareciam querer se aproximar de mim o suficiente para que eu possa fazer isso.

Bom, já que eu não conseguia fazer amigos (na verdade não tinha a mínima idéia de como o contrato social da amizade funciona) decidi arrumar um emprego. Ajudaria com as contas de casa e eu poderia ter contato com seres humanos que não estivessem presos em páginas.

É. Era uma boa idéia.

Consegui um emprego em uma pequena livraria no centro. A princípio, meu plano de socializar não funcionou. Como a livraria era pequena eu era o único funcionário e muitas vezes a única pessoa presente na loja. Até aquele dia fatídico...

Eu me apaixonei. E me odiei muito por ter deixado aquilo acontecer. Quero dizer, minha mãe havia se apaixonado também e olha onde ela está agora...

Ela entrou na loja quase que sem querer. Era alta, com longos cabelos loiros e olhos cor de chumbo. Ela era uma visão e tanto. Me fez lembrar dos tempos em que eu não queria piscar. Como eu tive medo de que ela desaparecesse naquele momento! Ela se aproximou do balcão e perguntou se eu tinha “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley. Peguei um exemplar e depois de muito gaguejar consegui estabelecer um dialogo sobre o livro com ela. Ela pareceu interessada, ou pelo menos fingiu muito bem (É como eu disse, não entendo nada sobre as relações sociais). Ela pagou o livro e se foi...
 Voltou sorridente algumas semanas depois, enquanto eu definhava e imaginava quando a veria novamente. Levantei da cadeira de um salto. Bom, definitivamente eu estava apaixonado e tentando ver pelo lado racional aquilo não deixava de ser uma forma de aprendizado, não é? Ela se apresentou e disse que o nome dela era Lilian. Sorri e perguntei qual livro ela queria. Ela disse que estava ali apenas para me ver.

Quando eu olho para o passado e penso sobre essa época, vejo que as coisas passaram com tanta velocidade que se transformaram em um borrão. Nós saímos e logo começamos a namorar. A principio achei que ela era perfeita para mim, mas o fim chegou rápido e quando me dei conta eu era Werther lamentando o meu coração partido...

Apesar de tudo acabei aprendendo bastante com tudo aquilo. Era como se eu tivesse amadurecido muito em pouco tempo, o que me permitiu ver o mundo com outros olhos. Claro que, como todos os seres humanos, eu passei um tempo desprezando o amor e fingindo que ele não existia.

Pelo que me pareceu, aquele acontecimento se tornou o meu impulso para ir embora de uma vez. Não, eu não estava fugindo. Isso não é do meu feitio. Simplesmente não havia mais nada que me prendesse a Lyon e como eu havia juntado um dinheiro razoável, decidi partir.

Minha mãe chorou bastante quando eu disse que tinha tomado a minha decisão e aquilo me doeu o coração. Aquela mulher havia me ensinado tudo que eu sabia, havia me criado sozinha e fora abandonada uma vez pelo homem que amava. E agora seria abandonada de novo.Mas ela entendeu como eu sabia que ela entenderia. Ela era a pessoa mais forte de todas. Sempre foi. Ela apenas me pediu uma coisa: Que quando eu visse tudo que eu queria ver e aprendesse tudo que eu queria aprender eu voltasse, mesmo que fosse apenas para contar tudo a ela. Eu sorri e prometi.

Arrumei todas as minhas coisas e parti naquela mesma tarde, pegando caronas na estrada. E foi assim que eu consegui realizar meu plano de me tornar sociável. Conheci pessoas de todos os tipos: arrogantes, sábias, bondosas, preconceituosas, falantes, excêntricas. Aprendi algo com todas e fiquei feliz por perceber que ainda havia tanto para se conhecer.

Durante a minha jornada passei por todo o tipo de experiência, desde dormir com uma garota sob as estrelas até passar uma noite em claro na cadeia por causa de uma briga. Conheci as mais diversas paisagens e me deslumbrei com todas, mesmo já as tendo visto mais de uma vez. Aprendi sobre costumes que nunca tinha ouvido falar antes e outros que achava que haviam caído no esquecimento humano. Ri, me apaixonei, chorei, desisti, pulei de alegria e até tentei me suicidar. É engraçado como você aprende sobre si mesmo durante um turbilhão de sentimentos.

Muitos anos se passaram. Décadas até. Estava na hora de voltar a Lyon e cumprir a promessa que tinha feito a minha mãe.

Cheguei a cidade e vi que ela havia crescido ligeiramente. Haviam mais pessoas nas ruas e muitos rostos desconhecidos. Fui até a casa em que eu morei. Estava fechada. Antes de ter qualquer tipo de pensamento, a vizinha me chamou e com os olhos embotados de lágrimas me contou que minha mãe havia morrido há mais ou menos um ano.

Não é necessário dizer que me permiti chorar daquela vez.

No cemitério sentei ao lado do túmulo da minha mãe e lhe contei sobre tudo o que eu havia passado com uma voz carregada de carinho e tristeza. Em horas como essas, mesmo um cético como eu passa acreditar que ela está em algum lugar ouvindo tudo que eu disse.

O tempo passou novamente. Eu cresci, aprendi, amadureci. Mas no fundo eu sei que continuo sendo aquele garoto que se recusava a piscar mesmo tendo nascido em um lugar onde todos insistiam em manter seus olhos fechados.

E continuo me recusando. Minha jornada ainda não terminou.
 
Na verdade, essa história é um roteiro de um curta que eu escrevi há algum tempo mas que nunca filmei. Tenho um carinho muito especial por essa história. Talvez pelo fato de que meu personagem principal tem a coragem que eu sempre quis ter.

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